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Vento da floresta

04/07/2004 18:20

Quem pegou o fumo daqui?



por Miguel de San Martin
migueldesanmartin@ig.com.br



(ou Piri e o Curupira)

Com os comentários, não audíveis pelos personagens, do >> Espírito de Porco.




Faz tempo. Bastante tempo. Os filhos conversam com os pais sobre quase tudo. Ainda procuram neles o conhecimento e a experiência que só a vida traz.
>> - Tudo isso p'ra dizer que a história é velha?

A caça ainda é permitida. Ou então não é. Só que ninguém sabe disso, dessa coisa de permissão.
A coisa mais natural do mundo, quando se enjoa da carne de frango e porco, é ir ao mato buscar um tatu ou um outro bicho qualquer.
Chamam isso de caçada. Não é uma caçada como a que vemos em filmes, com tigres, leões, e etc.. Nada disso. Vai se caçar tatu, preá ou com muita sorte um teiú.
>> - Hummm. Sei. Sei. Quase sempre uma matança daquelas!

Ele, Piri, desde pequeno, acompanha o pai nessas aventuras. São aventuras, e ele nem sabe disso.
Toda vez que o pai vai caçar, com o companheiro Zé do Fumo, ele os acompanha. Observando tudo, perguntando muito, calando quando mandado, ajudando no que pode, entendendo o que acontece. Sente-se bem: está aprendendo, sobre a mata, os bichos e sobre a vida.

Vamos fazer uma pausa, para falar do Zé.
>> - Xiiii. Vai começar!!!

O Zé é o parceiro inseparável de seu pai, nas caçadas e pescarias. Piri o acha muito estranho, esquisito mesmo.
No sítio em que moram, Zé tem fama de bruxo: conhece tudo de plantas e doenças, de chás e garrafadas. O fato é que, por conta da distância até o posto médico, o Zé acaba resolvendo a maior parte das mazelas daquele povo. Além disso, o Zé sempre carrega nos bolsos alguns nacos de fumo em corda, que costuma mascar, por isso do apelido.
Mas, o que mais incomoda Piri é o fato de que o Zé sempre olha para ele e para as outras pessoas como se estivesse olhando através da pessoa, como se estivesse enxergando algo atrás e acima da pessoa. Por várias vezes, ele interpela o pai a respeito da forma de olhar do Zé. A resposta, invariavelmente, é:
- Deixe isso quieto. Um dia você vai entender.
>> - Será que vai?

Outra coisa é a conversa de companheirismo: eles são companheiros durante o caminho. Ao entrarem no capoeirão, o Zé sempre fica um pouco afastado. E tem uma baita sorte! Sempre pega mais bichos que pai e filho juntos.
>> - Sorte? Bahhhh!

Em uma dessas empreitadas, ao entrarem na brenha, Zé do Fumo olha Piri, digo, olha através de Piri e diz:
- Você já cresceu o suficiente. Podemos caçar juntos. Vamos lá.
Tira do bolso um pedaço de fumo e o coloca em uma pequena greta no tronco de uma árvore bastante velha e muito alta. Feito isso, segue em frente.
- Vamos pegar os bichos.
>> - "Brigadão".
Piri, espantado olha para o pai, que com a mão acena para que ele acompanhe o Zé.

E assim fazem. Os três caminham pelo capão procurando buracos onde os bichos possam estar escondidos. Dai a pouco, o Zé grita - catei um - e lá vai um tatu para dentro do saco que ele carrega ao ombro. Um pouco depois, outro grito - iuuuuu. mais um, negada - 0utro tatu dentro do saco.

Piri e seu pai ainda não pegaram nada.

O Zé resolve parar:
- P'ra mim já tá bom. Vou indo. Espero vocês na entrada da mata.
>> - De nada.

Piri aproveita a ocasião para perguntar ao pai o motivo pelo qual o Zé teria colocado aquele pedaço de fumo na árvore, e seu pai responde:
- Bom. Como o Zé disse, você já cresceu. Ele sempre fumo naquela mesma árvore. Ele diz que é para os amigos dele. E ele deve ter suas razões. Eu não sei quais são, nem os amigos e nem as razões.
- Já que eu cresci, vou perguntar outra coisa. Por que ele olha daquele jeito, feito um zarolho?
- Porque ele vê coisas que nós não vemos.
- Coisas que não vemos! Fumo em árvore! Bicho não come fumo! Coisa de doido! - provoca Piri.
>> - Vamos ver, sabidinho!

- Já que o Zé "tá" fazendo outro caminho para voltar, vamos voltar por onde viemos. Aí passamos perto da tal árvore - responde o pai, já cansado da andança e das perguntas para as quais não tinha uma resposta que satisfizesse Piri.

E assim fazem. Chegando lá, nem olham para o lugar onde deveria estar o fumo. Um enorme teiú está dormitando sossegado perto da árvore. Piri elabora um plano rápido:
- Pai, o senhor segura o rabo dele, eu seguro a cabeça e enfio esse "lagartixão" dentro do saco.

Ambos pulam sobre a criatura.
- "Tá" pego.
- "Tá" no óleo.
>> - Quá. Quá. Quá.

Para surpresa de Piri, ele vê o bicho, que costuma rastejar, e que estava pego, jogá-lo e a seu pai no chão e literalmente voar por cima de sua cabeça e subir, ou melhor, sumir na árvore.
Olha para seu pai, dizendo:
- Uai, já viu tiú subir em árvore?
- Nunca - suspira seu pai, segurando um pedaço de tronco roliço na mão e jurando que tinha agarrado o rabo do teiú.

Vasculham o lugar onde deveria estar o bocado de fumo e não encontram nada.
Vindo do alto da árvore, um estranho assobio.
>> - Aprendeu, sabichão?

Saem da mata, meio que assombrados e encontram Zé, sentado em uma sombra, mascando o seu tabaco:
- Pegaram alguma coisa?
- Quase pegamos, mas aí aconteceu uma coisa estranha ... - responde o pai de Peri.
- O mato é cheio de coisas estranhas - interrompe Zé - Vocês podem ficar com um dos tatus que estão dentro do saco.
>> - Assim é que se faz!




enviada por Megeon






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